Matéria publicada pela Folha de S. Paulo em 17 de janeiro de 2025.
Entre os exageros cometidos nas festas de fm de ano e no Carnaval, o mês de janeiro é visto
por alguns como uma oportunidade para dar um tempo no consumo de bebidas alcoólicas. O
movimento “Dry January” (janeiro seco, ou seja, sem álcool) começou nos Estados Unidos e tem
conquistado cada vez mais adeptos no Brasil.
A prática traz benefícios para saúde física e mental, especialmente entre aqueles que costumam
beber em grandes quantidades, explica Durval Ribas Filho, médico nutrólogo e presidente da
Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).
Os impactos positivos refetem na saúde cardiovascular e na função hepática, além de reduzir a
resistência à insulina. Também há melhorias na absorção de nutrientes, especialmente das
vitaminas do complexo B como a tiamina (vitamina B1), e na recuperação dos níveis de algumas
enzimas pancreáticas essenciais para a digestão.
“Eu nunca fui muito de beber, mas desde que me mudei para São Paulo e comecei a sair
praticamente todo fm de semana, percebi que comecei a consumir álcool semanalmente”,
conta Mariana Rosa Larrubia, 23, analista de comunicação. “Às vezes até comprava um vinho no
meio da semana para me mimar.”
Larrubia está com a meta de fcar sem beber até seu aniversário, em março, e depois, reduzir no
geral, optando por tomar bebidas alcoólicas apenas ocasionalmente. Ela conta que, ao reduzir a
ingestão de álcool, ganhou mais disposição para estudar e trabalhar, além de começar suas
semanas de maneira mais tranquila. Fisicamente, ela percebeu uma signifcativa redução de
inchaço.
A médica psiquiatra Nina Ferreira, especializada em dependência química e neuropsicologia, diz
que “passar um mês sem ingerir bebida alcoólica ajuda a regenerar tecidos e órgãos,
principalmente o cérebro e o fígado”.
“Sem álcool, o cérebro funciona melhor, resultando em melhor concentração, raciocínio mais
rápido, refexos mais ágeis e melhor coordenação motora”, afrma a médica. Há também uma
melhora no humor, na percepção de felicidade e de prazer, além de redução da irritabilidade e da
ansiedade, completa.
Mariana Larrubia cita que saídas sociais em que todos estão bebendo é um desafo, mas maior
que isso é manter a decisão de parar de beber. No entanto, após uma semana e meia, ela já
havia se acostumado com a nova rotina.
No ano passado, Mariana Oliveira, 25, estudante de direito, passou janeiro sem beber e gostou
tanto da experiência que decidiu repetir neste ano. Ela menciona que conseguiu desintoxicar o
corpo e a mente, o que ajuda a fcar mais em casa e se concentrar em suas metas para o novo
ano.
Desde que começou o desafo, notou melhorias signifcativas tanto no bem-estar físico quanto
mental, incluindo maior foco na academia, redução da ansiedade, mais tempo de qualidade com
a família e boas noites de sono.
Durante esse período sem álcool, o médico Durval Ribas Filho explica que o desejo por açúcar
pode aumentar devido à infuência da substância no metabolismo da glicose. Para mitigar isso,
recomenda-se consumir frutas e carboidratos integrais. Frequentemente, bebedores habituais
apresentam defciências nutricionais, especialmente de tiamina (vitamina B1), que podem
causar problemas neurológicos. Assim, é aconselhável a suplementação com multivitamínicos,
especialmente do complexo B.
Para maximizar os benefícios de um mês sem álcool, é importante enriquecer a dieta com
alimentos ricos em vitaminas do complexo B, C, E, e selênio, além de aumentar a ingestão de
fibras com frutas, vegetais e grãos integrais. Manter uma boa hidratação é crucial, pois o álcool
tende a desidratar o corpo, intensifcando os sintomas de ressaca. Essas mudanças dietéticas
não apenas compensam os efeitos negativos do álcool, mas também promovem uma saúde
geral melhor.
Maikon Bryan, 22, gerente de experiência de cliente, comenta que evitar o álcool em contextos
sociais é mais difícil. Mas cita que seus amigos apoiaram sua decisão.
Na adolescência, era bastante ativo nos esportes, o que o desencorajava a beber para não afetar
seu desempenho. Com a transição para a vida adulta, ele reduziu a prática esportiva para se
concentrar mais no trabalho e nos estudos, o que resultou em eventos sociais mais frequentes
acompanhados de consumo de álcool.
A psiquiatra Nina Ferreira destaca que mudar a rotina para evitar o álcool pode causar
estranhamento entre familiares e amigos. Ela enfatiza a importância de comunicar claramente
que essa é uma decisão pessoal visando a saúde, e que espera-se respeito e compreensão.
Durante esse período, ajustes na rotina e distanciamento social podem ser necessários,
especialmente se enfrentar reações negativas como críticas ou isolamento.
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